sexta-feira, 16 de novembro de 2018

TOMANDO UM MATE MAQUIAVÉLICO



— É uma boa ideia instruir os governantes e serem ainda mais cruéis do que são por si?
— Certamente não, e se leu algum livro que faz isso, não é o meu! Ou não o leu adequadamente. Meu livro é claro desde suas primeiras páginas quanto a seu objetivo, talvez não quanto ao motivo, mas quando ao objetivo sim.
— E qual é motivo o? O objetivo se bem entendi no inicio do livro, é a manutenção do poder, a permanência do príncipe em seu reinado. Mas por quê?
— Por que a vida nas cidades é mais confortável e segura? Apesar de todos os problemas, apesar da própria crueldade de alguns príncipes, ainda assim viver nas cidades é uma alternativa melhor a morar no meio da floresta. Se quer comprovar isso, basta olhar o desespero de quem com frequência se perde na floresta e fica buscando a todo custo retornar a civilização. As pessoas podem até fazerem suas brincadeiras dizendo que gostaria de morar em uma floresta longe de todos, mas basta que você as atire lá, para que na mesma hora, comecem freneticamente a procurar voltar para a cidade. As pessoas querem os confortos da civilização e estão dispostas a pagar com a liberdade por isso, já fizeram essa escolha quando renunciaram aos instintos naturais, para o convívio social.
— Será que não seria melhor viver em uma floresta?
— Para uma imensa maioria não, viver sozinho, significa viver sem literatura, teatro, sem estoques de mantimentos, sem muitas das coisas que apreciamos.
— E precisa estar sozinho?
— Se não estiver sozinho, tudo que você fez foi mudar a cidade de lugar. Uma cidade não é o território, mas sim, seu povo e sua cultura. Não se engane, onde existe uma regra a ser seguida, existe política, onde existe mais de uma pessoa, existe povo.
— Mas por que para manter isso precisamos nos submeter a príncipes cruéis?
— Não precisamos de príncipes cruéis, mas sim de príncipes fortes, capazes de manter o poder e proteger as cidades da invasão de inimigos. Ou acredita que um príncipe de outro lugar, sem nenhuma história com o povo, será menos cruel do que um príncipe da própria região? A crueldade está no governo, governar obrigatoriamente é cruel, pois significa submeter o povo a regras que eles não querem seguir, mas precisam, para não matarem uns aos outros. A questão é, como governar sendo o menos cruel possível? Se Você ler com atenção meu livro senhor Wrobleski, perceberá que esse é meu principal assunto abordado ao longo da obra, como que um príncipe pode governar, mantendo o seu poder e sendo o menos cruel possível, produzindo o menor mal ao seu povo.
— E não é possível um príncipe manter seu governo sem ser cruel?
— Até aonde me lembro, a quase mil e quinhentos anos atrás, um deles tentou isso, foi açoitado e crucificado vivo, não? Creio que não deu muito certo para ele, pregar a paz entre os homens. Humanos são animais dos mais selvagens possíveis, seu discurso pode pedir paz, mas suas ações convocam a guerra.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

UM TERERÉ COM LEONARDO



— Leonardo, como você consegue ser bom em tanta coisa?
— Por que acha que sou bom em muitas coisas?
— Você é pintor, projetista, escultor, inventor, anatomista, desenhista...
— De fato eu faço todas essa coisas e muito mais. Mas não significa que faço tão bem assim.
— Bom, talvez seus estudos de anatomia tenham algumas falhas, mas dadas as suas limitações nessa época em que as pessoas podem ser queimadas vivas por mexerem com cadáveres, podemos considerar as suas descobertas como bastante satisfatórias. Quanto a seus trabalhos artísticos, o próprio fluxo de encomendas creio que deixa clara a sua aptidão.
— Talvez se eu consigo fazer bem tais coisas, é porque não estou preocupado em fazer mais e melhor, mas sim, deixo a arte fluir. Por isso que as vezes eu pinto por horas ou até dias sem parar, e outras eu nem toco em minhas telas. Não sigo o ritmo do cliente que encomendou a pintura, mas sim, o ritmo da arte que flui em minhas veias. E o fato de eu fazer tantas coisas, não é porque quero ser famoso com elas. Eu comecei a estudar o corpo humano, por curiosidade, assim como tantas outras coisas que fiz, apenas as fiz, porque queria saber como funcionavam, como eram. O que fiz ao longo da minha vida, foi zelar pela minha alma infantil, a mesma que leva uma criança a quebrar o brinquedo para ver o que tem dentro. A diferença é que quando eu quebro um brinquedo, eu construo algo totalmente diferente com os seus pedaços.
— Mas deixando um pouco seus inventos de lado e falando de suas pinturas, por que não me fala um pouco sobre a Mona Lisa?
— Que tal continuarmos tomando tereré em silêncio?
— Rrss!!!


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

UM TERERÉ COM FREUD



— Você sabe que é tido por quase todos que te conheceram como uma pessoa difícil de se relacionar, não é senhor Freud?
— Já parou para pensar que as pessoas chamam de “difícil de se relacionar”, todos aqueles que não se submetem a elas? Se alguém é capaz de pensar e toma suas próprias decisões, ao invés de seguir cegamente uma massa, ou se submeter às vontades do outro, comumente será considerado alguém “difícil de se relacionar”. Afinal, com quem é mais fácil de se relacionar, do que aquele que se sujeita as nossas vontades? A questão é que somos castrados e isso nos confere vontade própria, como sujeitos a parte do outro.
— É, mas você teve desentendimentos com quase todos que se aproximaram de ti, estou inclusive pensando até que ponto levaremos essa conversa, sem que você me cite em seu próximo livro, me chamando de místico fraudulento ou algo do gênero.
— Primeiro senhor Wrobleski, que seu Ego é grande demais, para se considerar relevante o suficiente a ponto de ser citado em uma obra minha, isso não acontecerá. Segundo, que todas as pessoas com quem me indispus, como sua referência ao senhor Jung, por exemplo, foram pessoas que colocaram a psicanálise em risco. Para ele é fácil arriscar a credibilidade da psicanálise desse modo a aproximando do misticismo, pois ele pouco investiu nela, além de estar em uma posição social cômoda, sem preconceito antissemita, sem dificuldades financeiras, sem sua moral sendo atacada a todo o momento, por pessoas que fazem referência à suas obras, sem nuca as ter lido. Eu investi uma vida inteira nesse projeto, a psicanálise é a forma mais eficiente de explicar a condição e movimentação psíquica do ser humano e precisei de uma vida toda de investimento libidinal, para organizá-la e conferir-lhe credibilidade científica, não permitirei que alguém despreparado, faça uma coisa qualquer, sem nenhuma pesquisa e experimentação clinica, e chame a isso de psicanálise, colocando a baixo o mínimo de credibilidade que consegui para essa ciência do psiquismo humano.
— Mas você mesmo deu essa possibilidade. Disse em suas obras que a psicanálise não está pronta, que as pessoas podem desenvolvê-la, modifica-la, fazer outros usos dela!
— Entenda senhor Wrobleski, quando você diz para seu convidado que “sinta-se em casa”, você está afirmando que ele pode fazer bom uso de sua casa, você espera que ele se sinta confortável, fique relaxado, se alimente, banhe-se, talvez até durma em sua casa, mas não espera que ele ateie fogo a residência, porque a casa é dele. Quando eu disse que as pessoas deveriam desenvolver a psicanálise, me referia à exploração de casos clínicos, ao estudo e analise teórica, com base científica, não que as pessoas poderiam pegar seus próprios preconceitos e ideias imaginárias, sem nenhum fundamento teórico e chamar a isso de psicanálise.
— Senhor Freud,... Já parou para pensar no que pode ser feito da teoria no futuro, se em sua época, com você vivo e lúcido já estão a desvirtuando desse modo? É melhor você tomar mais uma guampa de tereré para refrescar o juízo, talvez nem tu, nem eu, sejamos capazes de imaginar o quão longe as pessoas levarão as teorias, para que essas reafirmem preconceitos que elas tinham muito antes de conhecer a teoria.

domingo, 11 de novembro de 2018

UM TERERÉ COM SARAMAGO



— Como você consegue beber isso tão gelado? Meu cérebro chega a doer.
— Rrss!!! Talvez me falte um cérebro para doer senhor Saramago.
— Rs!!! Não se desmereça garoto, as pessoas sabem mais do que pensam e menos do que acreditam saber.
— Estive pensando após ler As Intermitências da Morte, não que eu esteja agourando sua vida, mas... você não é mais tão jovem, não é senhor Saramago e nessa idade é comum que as pessoas pensem muito sobre a própria morte. Teria alguma relação?
— Bom senhor Wrobleski, da morte pouco sabemos sobre a distância, se continua a pilotar a sua moto como já o vi fazendo, mesmo com a diferença de idade, talvez esteja mais perto dela do que eu. Mas é inegável que chegada uma certa idade começamos a nos questionar sobre quanto tempo mais temos. E para pessoas como nós, ateus, que sou e até onde sei tu também o é, não temos o conforto de um céu, não temos um além, a vida é aqui. Então como não tentar fugir da morte? Como não desperdiçar o restante de vida, tendo medo da única certeza que temos?
A única resposta que encontrei, a única forma de não desperdiçar minha vida com um medo inútil, já que a morte não evitarei por temê-la, ao contrario, posso antecipá-la por isso, a forma coerente que encontrei, foi compreendendo o ciclo da vida. Entendendo a função e necessidade da morte.
— E qual é a função da morte?
— A mesma do último capítulo de um bom livro de romance, ou um ensaio. Tem a função de encerrar a história, finalizar de maneira adequada, antes que a história se estenda além do devido e se torne tediosa. Já imaginou não ler nenhum dos últimos capítulos de todos os livros que leu em sua vida?
— Alguns dos que li, o último capítulo foi a melhor parte, O Grande Sertão de Guimarães Rosa, por exemplo, foi um dos melhores finais inimagináveis para um romance. Outros eu temi por imaginar um final mais trágico do que realmente foram, seu Ensaio sobre a cegueira foi um deles, que previ o pior final possível e acabou sendo mais carinhoso do que eu presumia.
— Talvez porque eu ainda acredite na humanidade, apesar de ela se esforçar diariamente tentando me convencer de ser uma causa perdida.
Mas você disse bem, alguns dos livros ganham um sentido e uma importância em nossas vida, somente após lermos o final. Por que com a vida tem que ser diferente? Por que não pode ser a morte a completar a vida? Dar a ela o final adequado e elevar a sua importância?
— É por isso que ao final seu personagem se deita com a morte na mesma cama?
— E não é o que todos faremos ao final dessa história? Não iremos todos um dia deitar-nos a mesma cama com a morte, em uma relação sexual tão intensa, que nos tornaremos um só?

sábado, 10 de novembro de 2018

UM MATE COM NIETZSCHE



— Senhor Nietzsche, sabe que você é tido por muitos como um filósofo pessimista, não é?!
— Eu? Pessimista? Por que o seria?
— Talvez porque você destrói qualquer ideia de algo para além de uma vida miserável na existência atual.
— Se você torna sua vida miserável o pessimismo não é meu, mas sim das suas atitudes.
— As pessoas se sentem mais seguras em imaginar que existe um propósito maior na sua existência.
— Seguras o suficiente, para desperdiçar a única vida que elas têm. Se você entende que essa vida é a que precisa ser vivida, você não a descartará em nome de imaginações posteriores. Já leu meu conceito de eterno retorno?
— Ler é uma coisa, entender o que você escreve é outra coisa senhor Nietzsche!
— Nossa! Sempre me faço tão claro em minha escrita!
— Sim, certamente, imagina, quem em sã consciência discordaria disso!
— Em fim. Imagine essa mesma tarde senhor Wrobleski, nós aqui, nessa conversa descontraída, acompanhada dessa bebida, qual é mesmo o nome?...
— Chimarrão senhor Nietzsche!
— Pois bem, como eu dizia, imagine que essa cena que ocorre nesse momento, nós dois aqui conversando e bebendo, irá se repetir por infinitas vezes, exatamente como ela ocorre nesse momento. Pense em como se sente em relação a isso, se essa ideia te aterroriza, é porque nesse exato momento você está desperdiçando sua vida. Ao contrario, se essa ideia lhe é de agrado, significa que está vivendo a sua vida exatamente como deseja. É afeito aos prazeres da sexualidade senhor Wrobleski?
— Sim!
— Então se imagine em um momento de prazer, com a mulher mais atraente que já conheceu em sua vida, imagine um momento de máximo prazer, o mais intenso que já experienciou em sua vida. Lhe desagrada imaginar esse momento se repetindo eternamente?
Se você está vivendo de maneira legitima, a ideia do eterno retorno, não lhe desagradará, mas se está desperdiçando sua vida, essa ideia lhe será mais assustadora e angustiante, do que a própria ideia da morte. Por isso, que quem compreende esse conceito meu, não precisa de muletas metafísicas para suportar a vida, porque encontra a suportabilidade dela, na própria vida presente e não em promessas futuras. Por isso discordo de quem me chama de pessimista, só veem pessimismo na minha filosofia, aqueles que se esforçam para que suas vidas sejam péssimas.

A CLASSE MÉDIA QUE FINGE SER RICA


      A ignorância das pessoas é tão grande, que elas defendem aquilo que nem conhecem. Quantos defensores do capitalismo, não se importam com as classes de base, sendo eles de classe média. Sem entender, que quem sustenta a classe média é a classe de base, se a classe de base, ou seja, a população mais carente, que recebe um salário mínimo ou próximo disso, tem seu poder de compra diminuído, a classe média quebra em pouquíssimo tempo, pois a classe média não tem acumulo financeiro o suficiente para se manter e quem mantém seus comércios de médio e pequeno porte, é justamente a população de base.
    Os únicos que se beneficiam com a quebra de direitos trabalhistas e fim de projetos de redistribuição de renda, são os donos de multinacionais, pois esses, conseguem mão de obra quase de graça, e não dependem desse trabalhador para ter seu lucro, pois vendem seu produto para outros países, que mantém o poder de compra. Já a população de classe média, que tem empresas e negócios de comercio interno, depende de que o próprio funcionário possa comprar seus produtos, pois de nada adiante, produzir, sem ter para quem vender.
         Todo comercio de pequeno e médio porte, vende para a classe de base, para o trabalhador assalariado, não é para o rico. Pessoas que roubaram o suficiente para serem ricas, compram suas roupas nos Estados Unidos, compram seus perfumes na França, muitas vezes mandam importar até mesmo seus carros, ou seja, classe média não vende para gente rica, o cliente da classe média, é o pobre, o trabalhador de base, assalariado. Se esse trabalhador recebe pouco, ou tem seus direitos diminuídos, ele perde poder de compra, ela deixa de gastar, se não no essencial, automaticamente a classe média, que depende da base, quebra. Vai produzir pagando salários baixos, mas não terá para quem vender o produto.
     Sabe porque eu sei disso, porque diferente dos imbecis que ficam chamando esse de comunista, aquele de outra coisa e defendendo o capitalismo sem ter lido um único livro a respeito, eu estudo para entender como o sistema funciona. Então antes de dizer que pobre tem que se ferrar mesmo, primeiro, verifique se você não é pobre, porque o que não falta é idiota que compra carro novo parcelado em setenta e duas vezes, se achando rico, se você não consegue comprar o que deseja a vista em dinheiro, você está longe de ser classe média, que dirá rico, agora se você faz suas compras à vista e em dinheiro, você é classe média, nesse caso, verifique quem são os seus clientes, que sustentam o seu comercio antes de falar que pobre tem que se ferrar.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

NINGUÉM QUER OUVIR

Rubem Alves esclareceu bem em seus texto escutatoria a realidade contemporânea, as pessoas nada querem ouvir do outro.
Já houve tempos em que as vizinhas fofocavam da vida alheia, hoje se uma começa a falar, a outra logo da um jeito de incluir a sua própria vida na conversa.
Não sei se é resultado de uma carência emocional grande, de imaturidade, ou mero egocentrismo exacerbado, mas a realidade é que as pessoas estam cada vez mais se tornando incapazes de escutar seus semelhantes. Quando alguém começa a falar algo, talvez para desabafar ou buscar um outro ponto de vista, como Alves mesmo diz, inicia-se uma disputa em busca de quem tem a vida mais desgraçada. Um sujeito fala de suas dificuldades e o outro logo encontra problemas e dores maiores para relatar. Isso porque não deseja ouvir seu semelhante, então busca a todo custo calar-lhe com desgraças maiores que as dele.
Dificilmente você encontrará uma pessoa que ao ouvir de outro um problema, irá de fato esperar o fim do relato, terá ouvido e dira: "triste você estar passando por essa dificuldade, espero que as coisas se resolvam para você." 
A realidade é que tudo em nosso semelhante, nos incomoda. Se ele está triste, não suportamos sua tristeza, talvez porque nos faça lembrar de nossas próprias desgraças. Mas se ele está feliz, nos irritamos com sua felicidade, como pode?! Ele assim sorridente, tirando fotos em viagem, enquanto eu estou cheio de contas para pagar?
As pessoas querem que seus semelhantes as vejam, querem ser vistas, ouvidas e faladas. Mas não suportam, ver e ouvir o outro, nem mesmo falar, a fofoca que já foi motivo de incomodo para muitos, virou status e desejo, as pessoas desejam ser faladas pelos outros e se esforçam em aparecer em todas as redes sociais para isso.
Estamos em um mundo cheio de falantes e sem ouvintes.